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O Jardim das Borboletas
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Ainda me recordo da figura do meu Baé. Seus olhos sinceros e miúdos, sua carinha
chata, sua maneira infantil, sua conduta correta, trazem-me à mente reminiscências
alegres de tamanho tal, que me fazem vir as lágrimas ao rosto. É que muitas
vezes, pus-me no passeio a descascar cana mirim em sua companhia,
observando-lhe todos os detalhes. Quando eu mastigava a cana, não conseguia
fazer com que ela ficasse amarelinha, como ele maquinalmente fazia. Pensei em
dar o meu testemunho dele, aqui nesta obra, mas o moleque branco, "O
Chibungo", tomou todas as minhas atenções e por mais que quisesse dividir
o título com o Baé, não pude fazê-lo. Eu cometeria um crime com a minha própria
consciência, se não falasse nada sobre meu Baé, um porquinho engraçado que
vinha, sempre que podia, conversar comigo, junto ao passeio e partilhar de um
bom pedaço de cana. Peço-lhe desculpas, meu Baé, por não tê-lo colocado aqui.
Seu lugar ficou reservado em um pequeno cântaro, quando nós dois juntos, víamos
passar um homem barbudo, chamado Papai Noel, pelas ruas da Muritiba. Você está
em "O Jardim das Borboletas", porque na realidade eu não poderia
fornecer-lhe outra coisa que não flores. Seu olhar, amigo Baé, era o de um
jardim, de um amigo fiel e sincero que sempre se colocou acima dos seres
humanos, já que esses só sabem pensar em maldades, guerras e intrigas. Não sei
bem se o "Menino Jesus" ensinou para as crianças qual o destino dos
porquinhos, já que a Bíblia não nos fala de tal coisa, mas eu sei meu Baé, que
embora houvessem devorado o seu corpo, sua alma, se é que Deus reservou um Éden
para os animais, deve estar aguardando a penetração nesse paraíso ou quem sabe,
já deve estar brincando com as criancinhas e com o próprio "Menino
Jesus". Você sempre foi brincalhão e gostava dos folguedos. Eu gostaria de
dizer-lhe no tom infantil da minha época, que a cada instante os homens se
tornam inferiores a certos animais. Só existem ódios, guerras e disfarces. As
ameaças nucleares são uma vergonha para a humanidade. As brigas entre nações
existem só para fazer vontade à luxúria dos maus governantes. Esses deveriam ir
para uma arena, ao declarar guerra entre um povo e outro. Teriam que lutar os
dois até que ambos sucumbissem e se um saísse vivo, o seu próprio povo deveria
executá-lo. Com a morte desses baixos animais racionais, os povos viveriam em
paz.
Você foi superior, Baé. Seus olhos, sua compreensão, seu amor à boa conduta,
transladaram para mim os mais efusivos dotes e eu os apanhei, embora sabendo
que dirão ser eu um mero louco, mas ser contrário às regras, ser insólito a
maldades e misérias, se constitui loucura, eu sou o mais louco deste mundo.
Na minha vida só tive momentos felizes, mesmo nas horas em que essa felicidade se
via em frangalhos por obcecações de circunstâncias. "O principal lema da
vida é saber ser feliz nos momentos de sofrimento". Carreguei isto comigo
e dele fiz o meu talismã. Espero que sejamos compreendidos, até mesmo por aqueles
que ainda não compreenderam a si próprio.
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