Rosalvo Júnior
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O Jardim das Borboletas
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O Jardim das Borboletas Ainda me recordo da figura do meu Baé. Seus olhos sinceros e miúdos, sua carinha chata, sua maneira infantil, sua conduta correta, trazem-me à mente reminiscências alegres de tamanho tal, que me fazem vir as lágrimas ao rosto. É que muitas vezes, pus-me no passeio a descascar cana mirim em sua companhia, observando-lhe todos os detalhes. Quando eu mastigava a cana, não conseguia fazer com que ela ficasse amarelinha, como ele maquinalmente fazia. Pensei em dar o meu testemunho dele, aqui nesta obra, mas o moleque branco, "O Chibungo", tomou todas as minhas atenções e por mais que quisesse dividir o título com o Baé, não pude fazê-lo. Eu cometeria um crime com a minha própria consciência, se não falasse nada sobre meu Baé, um porquinho engraçado que vinha, sempre que podia, conversar comigo, junto ao passeio e partilhar de um bom pedaço de cana. Peço-lhe desculpas, meu Baé, por não tê-lo colocado aqui. Seu lugar ficou reservado em um pequeno cântaro, quando nós dois juntos, víamos passar um homem barbudo, chamado Papai Noel, pelas ruas da Muritiba. Você está em "O Jardim das Borboletas", porque na realidade eu não poderia fornecer-lhe outra coisa que não flores. Seu olhar, amigo Baé, era o de um jardim, de um amigo fiel e sincero que sempre se colocou acima dos seres humanos, já que esses só sabem pensar em maldades, guerras e intrigas. Não sei bem se o "Menino Jesus" ensinou para as crianças qual o destino dos porquinhos, já que a Bíblia não nos fala de tal coisa, mas eu sei meu Baé, que embora houvessem devorado o seu corpo, sua alma, se é que Deus reservou um Éden para os animais, deve estar aguardando a penetração nesse paraíso ou quem sabe, já deve estar brincando com as criancinhas e com o próprio "Menino Jesus". Você sempre foi brincalhão e gostava dos folguedos. Eu gostaria de dizer-lhe no tom infantil da minha época, que a cada instante os homens se tornam inferiores a certos animais. Só existem ódios, guerras e disfarces. As ameaças nucleares são uma vergonha para a humanidade. As brigas entre nações existem só para fazer vontade à luxúria dos maus governantes. Esses deveriam ir para uma arena, ao declarar guerra entre um povo e outro. Teriam que lutar os dois até que ambos sucumbissem e se um saísse vivo, o seu próprio povo deveria executá-lo. Com a morte desses baixos animais racionais, os povos viveriam em paz.
Você foi superior, Baé. Seus olhos, sua compreensão, seu amor à boa conduta, transladaram para mim os mais efusivos dotes e eu os apanhei, embora sabendo que dirão ser eu um mero louco, mas ser contrário às regras, ser insólito a maldades e misérias, se constitui loucura, eu sou o mais louco deste mundo.
Na minha vida só tive momentos felizes, mesmo nas horas em que essa felicidade se via em frangalhos por obcecações de circunstâncias. "O principal lema da vida é saber ser feliz nos momentos de sofrimento". Carreguei isto comigo e dele fiz o meu talismã. Espero que sejamos compreendidos, até mesmo por aqueles que ainda não compreenderam a si próprio.
 
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